sexta-feira, 4 de janeiro de 2008

SEM RASURAS

Depois de 90 dias, a alma, que em silêncio viu passar a vida, reverenciou os signos, retorno fiel das visões, e marcou as trilhas da caminhada. Por onde andava bebeu na fonte, cortou o mato e abriu picadas.
Lançou-se em viagem, em abandono deixou tudo para trás. Rompeu véus de perplexidade, arriscou sua sorte e partiu até que a vida lhe parou. Parou a vida, parou de respirar, foi-se a seiva, mas a alma continuava ao meu lado, mostrava guardada em cofres de ouro e prata a mesma seiva . Nada se perdera. Tudo estava intacto.
Viu a volta do amor perdido que em seu regaço afundou suas mágoas e em gestos de dor e descompasso chorou o amargor das escolhas sacrificadas. Mãos estendidas e desamparadas. Abraços, beijos, entregas...Ah! minha alma, descanso minha saudade. A distância em realidade nos uniu alma com alma, nada separa .
Vejo tudo que partiu voltar, intacto, sem rasuras...
O amor permanece, e assim permanecerá..
Compreendo então, minha alma, a lição do encanto, a lição do impenetrável.
Este lugar de céu que construístes em mim.
Abro os braços, deito na relva fresca da manhã, digo bom dia ao sol e me entrego a vida.

quarta-feira, 10 de outubro de 2007

MEUS PEDAÇOS

Tento me recompor, tenho momentos alternados de interiorização e outros de profunda tristeza. Procuro me encontrar entre meus pedaços e recomposta tento sobreviver a cada dia. Vê-se que hoje o dia não amanheceu para os melhores.
Tenho a necessidade do silêncio para que minha alma fale, que conte de suas agruras e travessuras que me colocam aqui neste estado.
- Mas afinal temos aqui uma questão e vamos resolvê-la juntas, falou a alma em tom alto e forte, mostrando que agora era ela que mandava ali.
Faço mais silêncio para poder escutar com clareza.
- Sou eu mesma que te falo, sua tonta! Não tens mais para onde ir, tudo está confuso na tua cabeça e mal te pões de pé quando acordas. Desta forma me tomei da razão e resolvi vir falar direto contigo. Afinal tu me conheces e se tem alguma coisa que te preservou até aqui fui eu.
Levanto os olhos para ela e peço em tom de misericórdia.
- Fala então.
­- Eu não falo, eu escrevo.

quarta-feira, 3 de outubro de 2007

CARTA

Meu Amor,
Como dizia o poeta "eu sei que vou te amar, por toda a minha vida..." e foi assim que começamos a nos dizer adeus. Ainda não entendo toda essas coisas loucas que daçam como figuras esquálidas de terror, misturadas em palavras doces e melequentas. Vendei por muito tempo os olhos, dancei nas esperanças e não te percebi. Não percebi que partias, que as malas estavam arrumadas. Perdida em sonhos, descobri a alma, me fiz poeta e adormeci.
Depois, na dor criei assas, vontade imensa de voar, ver a cidade de cima e dançar livremente ao vento no sabor do tic tac do teclado. O que escrevo não me decepciona, apenas crio as imagens do meu coração.
Sigo a vida, deixo as lembranças, parto em busca dos sonhos, da viagem desconhecida.


segunda-feira, 1 de outubro de 2007

"PREGO"


Quase roubaram de mim também as letras.

A dor lascinante cerrou meus olhos, e paralizou a alma.

Tive muito pouco tempo para entender os signos

E sucumbi em interrogações.

Estive muito só.

Mas os signos decifram-se em solidão.

Toco minha pele ainda dolorida e percebo o quanto ainda estou viva.

Deixo languidamente para trás as tristezas

Volto a colher em letras as verdadeiras revelações

sábado, 18 de agosto de 2007

ONDE ESTAVA

- E ai amiga, por onde andavas?
- Não andava, dormia.
Dormi. Hibernei em uma viagem interna que jamais havia vivido antes. Encontrei imagens esquecidas e empoeiradas. Refiz caminhos, me vi desnuda em uma sala de espelhos.
Meu gato e minha cachorra não cansam de me olharem de canto de olho, totalmente perdidos com as minhas mudanças e loucuras, ou estou trocando caixas de lugar, ou paralisada, muda, olhando cada pedaço de mim.
Retorno ao meu trabalho e a mim mesmo, mulher que eu gosto, cheia de contradições, mas muito inteira nas minhas escolhas das quais sou fiel e um tanto irracional para alguns.
Não sei viver sem o amor. E ele sempre está lá em tranqüila certeza de sobrevivência. Contra tudo e contra todos, ele se assentou na minha carne e nos meus cheiros, como parte de mim. Meus passos determinados soam em tons de bolero onde dança comigo.
Mas não posso impedir as transformações, este remexer de areias que em blocos se reacomodam e não perdem sua mania de voar ao sabor do vento. Sobrevivendo a dor venho me criando e recriando, desfazendo velhas costuras. Tem momentos que me sinto como num SPA elegante, os períodos de banhos quentes perfumados se misturando à camas de tortura com choques elétricos e sucessivas loucuras.
Cada minuto de sobrevivência é acompanhado pelo silêncio, premio pela rebeldia de teimar em ser feliz.